Este texto era para ser um comentário à postagem “Lembra?” do blog Crônicas e Cômicas. Mas acabou ficando grandinho e achei melhor publicá-lo como uma postagem mais pessoal que as outras aqui em meu próprio blog (em alguns dias haverá outra assim).Por anos eu fui atormentado com o estigma de ter uma memória ruim, memória fraca, memória de peixinho dourado. Ginseng e Ginkgo Biloba algum fazia diferença, e aqueles exercícios para a memória, gratuitos ou pagos, mostraram-se todos uma grande piada.
Até que, bem recentemente, coisa de dias atrás, comecei a me dar conta de que o buraco era mais embaixo.
Veja, já terminei a faculdade há anos e anos (apesar de só ter entregado a monografia ano passado) mas me lembro de nomes de autores, de trechos de livros e às vezes de aulas completas que vi. Lembro-me de textos que escrevi, de livros que não consegui achar na biblioteca e lembro do que comi da única vez em que fui ao refeitório da Unesp (arroz sem alho, feijão sem louro, purê de batata sem alecrim e bife de coxão duro sem molho inglês). Sempre fui muito bom com nomes de atores, diretores e roteiristas de cinema, e títulos de filmes, e consigo citar passagens inteiras de Jornada nas Estrelas de memória, e ainda dizer o nome do episódio onde foi pronunciada. Consigo “encontrar” um ator debaixo de várias maquiagens — é comum em Jornada que um ator apareça novamente, como outro personagem, várias e várias vezes —, reconheço-o tanto pelas feições como pela voz, principalmente a voz. Lembro-me bem de nomes de perfumes, em especial da situação exata de quando os senti pela primeira vez. É comum eu me lembrar detalhadamente onde estão os utensílios de cozinha se fui eu quem arrumei o armário...
... Mas até agora ignorava toda essa informação por causa dos elementos do dia-a-dia que irritam as pessoas (ou que elas reparam melhor): esqueço onde estão as chaves do carro logo depois de colocá-las na bolsa, esqueço o telefone celular em todo lugar, esqueço compromissos o tempo todo, já no portão para a rua volto em casa para pegar algo que esqueci, pego outra coisa, volto ao portão e me dou conta de que não voltei para pegar o que tinha me feito voltar em primeiro lugar. Esqueço até do que eu estava falando cinco minutos antes, se entro em outro assunto. Uma vez procurei por vários minutos um boné que estava na minha cabeça. Faço um pedido num restaurante e esqueço o que foi — pode me perguntar, metade das vezes eu não lembro do que pedi.
Mas nunca me esqueço da cerveja que pedi ao garçon.
Eureka.
Cheguei à conclusão que não tenho memória de peixinho dourado. Minha memória, na verdade, é tão boa quanto a de qualquer outro cidadaõ (meus irmãos, ao contrário, têm memória de elefante), mas sou uma mente profundamente desatenta. Faço tudo pensando constantemente em outra coisa, com a atenção voltada a outro lugar, outro tempo, ou outro assunto, e aí nunca chego a registrar na memória aquilo que supostamente me esqueci. Minha mente nunca pára, estou sempre formulando textos, conversas, sínteses, confrontando argumentos velhos; relembrando uma passagem memorável (o uso desta palavra aqui é proposital) de um gibi; me lembrando do último filme que vi ou o que vou fazer no shopping quando for comprar um livro; comparando preços das pimentas que vi no mercado; se vale a pena comprar ou chapéu ou trocar as marchas da bicicleta; na última gravação do podcast, me perguntando onde deixei meu caderno de notas para o jogo de RPG do sábado; como seria um filme dos Thundercats; etc.
Em resumo, passo pelo dia e pelas coisas pensando em outra coisa na maior parte do tempo. Sou desatento. Quando me concentro em algo (o que não é fácil) lembro-me daquilo muito bem.
Finalmente me livrei desse estigma de desmemoriado. Troquei-o pelo da desatenção. E a melhor parte disso, é que desatenção é um mal comum entre os gênios, hehehe...
Ilustração desta postagem: Jay Leek & Karin Higgins



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