Não me pretendo ser um especialista ou portador de grandes conselhos sobre como fazer um podcast. Sou apenas um cara que brinca de ser podcaster duas vezes por semana e que se considera no middle rim da galáxia de podcasts que há por aí (nem na periferia ou no inner rim, e muito menos entre os core worlds*). Meu primeiro texto sobre podcast pretendia dar umas dicas para amigos que me perguntavam sobre como fazer um podcast; ao invés de escrever para cada um, produzi um texto para o caso de ser útil a mais alguém.Este aqui foi pensado do mesmo jeito. Ao observar algumas dificuldades que amigos e colegas podcasters recém-chegados estão tendo com trilha sonora e música, resolvi-me por escrever um texto com minhas idéias, sobre o que eu acho sobre o assunto. Para conselhos de verdade, ouça aos GenCon Seminars (mais focado em podcasts de RPG, mas ainda assim muito úteis). Para dicas diametralmente opostas às que escrevo aqui, ouça ao Metacast.
A trilha de fundo
Minha opinião sobre música ao fundo da conversa do podcast resume-se a uma única palavra: «não». Não coloque música de fundo no seu podcast. Eu não coloco, e acho que atrapalha, que desvia a atenção de seu ouvinte da conversa.
Minha experiência pessoal com trilha de fundo em podcasts é de simplesmente me pegar prestando atenção às músicas, especialmente se elas são boas ou agitadas, e não ouvindo ao que está sendo dito. Mas eu sei que a tentação é grande. Quem não gostaria de ter trilha sonora no dia-a-dia? Quem não aprecia boa música? Bem, é esse o problema. Já reparou que nos filmes, quando num diálogo ou numa cena em que algo importante está sendo dito, quase não há trilha sonora? Toda vez que o diretor está mostrando para você uma conversa importante para a trama, a música está ausente. E por quê? Porque música é muito bom nas cenas de ação ou de romance, mas na hora de chamar a atenção do espectador para uma fala, ela atrapalha.
Esta é minha opinião. Agora vamos flexibilizá-la, porque eu sei que você vai morrer de vontade de enfiar quantas músicas legais conseguir em cada episódio de seu podcast. Além disso, você pode estar se perguntando “quem esse babaca pensa que é, quando os maiores podcasts do Brasil, com o Nerdcast e o NowLoading usam trilhas exaustivamente ao fundo de seus episódios?”. Pois é, até um de meus podcasts favoritos, o Order 66 também usa trilhas sonoras de fundo (eles fecharam um acordo para poder tocar as trilhas de Star Wars no programa). Em primeiro lugar, discordo do uso de trilhas sonoras no Nerdcast e no NowLoading. É isso aí, eu discordo. Este é o problema de viver numa democracia, eu tenho direito de discordar, mesmo de gente que tem mil vezes mais ouvintes que eu.
Trilhas sonoras de fundo me distraem. E, se me distraem, devem distrair muita gente por aí também. Mas podemos, como disse, flexibilizar, para duas situações: 1. Se o programa é de entretenimento e humor, daqueles você pode ouvir trabalhando, fazendo faxina ou mesmo resumindo um livro. Como esse tipo de programa não requer muita atenção para começo de conversa, não há problema. 2. Se a trilha sonora naturalmente não chamar atenção, se só estiver lá para preencher os momentos de silêncio, ela não irá distrair o ouvinte. Ou seja, se for uma música pouco conhecida, uma batida contínua e, preferencialmente, não muito agitada, a trilha fará exatamente o que você quer, que é preencher o fundo do episódio.
Mas ninguém faz isso. Podcasters adoram colocar faixas de rock pesado, ou clássicos do pop como trilha sonora. E o que acontece é que eu, por exemplo, sem querer começo a prestar atenção à faixa musical e só depois de dez minutos me dou conta de que não ouvi nada do que foi dito no podcast. Portanto, se você não pode evitar, coloque trilhas inócuas ou desconhecidas, e de preferência bem, bem baixinho (algo como 20 ou 24 decibéis mais baixo que as vozes). Mas tente evitar, especialmente se você está fazendo um podcast sobre um assunto que as pessoas deveriam estar prestando atenção e absorvendo o que você e seus convidados dizem, não a música.
Mas eu continuo recomendado nenhuma trilha de fundo de qualquer modo.
Abertura e encerramento
Uma coisa muito importante que os podcasts em começo de carreira (nossa, até parece que estou por aí há anos) não resistem é variar as músicas de abertura. E é uma coisa dificílima de resistir, porque há tantas musicas boas que poderiam abrir um podcast! Eu até hoje tenho essa vontade, e foi por isso que comecei um segundo podcast com música dividindo os blocos, para ter a desculpa ideal para colocar quatro faixas completamente diferentes a cada semana, toda semana.
O lance da faixa de abertura, tanto a música quanto a vinhetinha e o jeito como você e os outros apresentadores abrem cada episódio, é que ela cria um caminho neural em seus ouvintes. Literalmente, os neurônio no cérebro do ouvinte estabelecem um caminho sináptico que, quando estimulado, ou seja, quando a pessoa começa a ouvir aquela vinheta conhecida de abertura, ela entra imediatamente no mindset de ouvir seu programa. Chega mesmo a ativar o centro de recompensa do cérebro, aquela senação gostosa que foi por anos formando o caminho neural, por exemplo, da abertura da Tela Quente, quando não havia TV a Cabo no Brasil. Ou então o caminho neural que a música do Corujão ativava no cérebro, que me passava de imediato a idéia de que estava ficando tarde demais e que eu teria problemas se meus pais me pegassem acordado, quando garoto.Esse tipo de sensação está presente num podcast, e por isso a faixa de abertura é tão importante. E por isso é complicado mudá-la, porque você obrigará o cérebro de seu ouvinte a reaprender o caminho neural que lhe diz “hora de relaxar e rir muito, está começando o Bear Swarm”.
Da mesma maneira, a faixa de encerramento diz ao ouvinte, num nível consciente e também inconsciente, que o programa acabou e está na hora de voltar ao estado mental de antes do programa.
Fontes de música
O Brasil não é um país sério, então por aqui ninguém está se lixando para direitos autorais. Mas isso é feio e triste. Como podemos reclamar de políticos ladrões se nós mesmos somos um bando de malandros, podres e descarados?
Além disso, existem tantos artistas por aí que divulgam gratuitamente suas músicas, com o exclusivo propósito de serem usados em podcast, que eu acho que simplesmente não compensa usar música com copyright em seu podcast. Por favor, vamos tentar construir um país sério a partir de algum ponto. Se você não conhece meu podcast Estilingue, este é um programa baseado totalmente em faixas musicais liberadas para uso em podcast, retiradas do Podsafe Music Network, um lugar entupido com milhares de músicas muito boas, muito bem feitas, de todos os estilos existentes — e alguns não existentes, como “glam punk”, “screamo” e “nerdcore”. E tudo o que eles pedem em troca é que você cite em suas shownotes ou em sua gravação que usa as músicas deles, e que música/banda usou. Só isso, nada mais.
Além do Podsafe Music Network, há outras ótimas fontes de música, inclusive faixas feitas para serem aberturas ou encerramento de podcasts, como Podcast Themes, Podsafe Audio e Podcast.com. Eu não recomendo o Garage Band, porque a maioria das músicas de lá, apesar de ótimas, requer pagamento e não estão necessariamente disponíveis para uso em podcasts. Mas com as outras quatro fontes acima, eu tenho certeza que depois de vinte minutos de procura você terá tantas faixas perfeitas para serem o tema de seu podcast que vai levá-lo à loucura tentando escolher uma só.
(Uma solução parcial para isso é usar uma faixa para abertura, outra para interlúdio e uma terceira para encerramento; e às vezes você consegue encaixar um tema diferente para episódios especiais, hehe.)
Bem, esse foi meu bramido contra-corrente sobre o assunto. Ao fim e ao cabo, não posso lhe dizer o que fazer com seu show. Mas, se estava à procura de conselhos sobre a questão das músicas em podcasts, espero tê-las solucionado. Se não, deixe um comentário por aqui ou escreva para mim, neste endereço.






“Ai, que vontade que tá me dando...!”
“Vai passá o final do filme ou tá afim de encará?”


