De certo modo, sinto-me um explorador solitário da Ficção científica (ou FC). É difícil encontrar camaradas leitores do gênero, gente com quem eu possa conversar sobre os livros que li e trocar idéias sobre os melhores filmes, pegar sugestões do que ler e ver, que game jogar, etc. Não sou muito de amizades virtuais, mas se quero falar de FC, preciso recorrer a fóruns e listas de discussão em língua inglesa, porque aqui no Brasil é muito raro eu encontrar fãs do gênero.

O que não sabia é que não é apenas minha posição geográfica ou meu círculo de relacionamentos que estreita meu compartilhar do gosto pela FC, mas sim a tônica do público brasileiro, como opina o programa da GloboNews que reproduzi anteontem. Acrescente-se à opinião da matéria de TV uma idéia esquisita que os produtores, editores e mesmo consumidores brasileiros têm de literatura. Acha-se, no Brasil, que literatura tem a nobre função de educar, socializar, conscientizar, aculturar. Obras dos mais diversos calibres da literatura nacional são tratadas como baluartes da cultura e do conhecimento nacionais. Essa idéia estranha de que um livro tem uma função social ao invés de ser o que é no exterior — fonte de entretenimento — produz e reproduz apenas obras chatas e textos datados são tidos como lindos; escritores novos que se vêem na obrigação-cidadã de cumprir essa função social dão continuidade à longa fila de textos enfadonhos, livros que se levam a sério demais.
Aparte da função da FC de alertar, de falar sobre o que poderia (ou poderá) acontecer se não deixarmos de fazer X ou se fizermos Y, um livro (de qualquer gênero) deveria ter a função primordial de divertir, não de aculturar. Nos países ocidentais desenvolvidos — que não precisam desesperadamente incutir cultura em seu povo —, livro é só livro, e as pessoas lêem para se entreter, e não para tornarem-se pessoas melhores. Desse modo, FC no Brasil ganha a cunha tácita de sub-literatura, textos menores, coisa de alienados; bom mesmo é ler porcarias como «O Ateneu» ou «O Cortiço», de preferência na escola aos 13 anos, para continuarmos a incutir nas crianças, geração após geração, a idéia de quer ler é chato, enfadonho, difícil e cansativo.

Voltando à minha solição temática: Robert A. Heinlein, Isaac Asimov, Andre Alice Norton, Arthur C. Clarke, Alan Dean Foster, Anne McCaffrey, William Gibson, Ann Crispin... quem de vocês, meus amigos leitores de meu blog, conhece esses autores e autoras? Fantasia é fácil de encontrar, qualquer mané na esquina leu J.R.R. Tolkien, C. S. Lewis, Neil Gaiman, J.K.Rowling e Terry Pratchett — felizmente e graças ao cinema, não me entendam mal, mas onde estão os apreciadores da boa e velha FC? Seria isso um reflexo de algum momento pelo qual passamos? Fantasia fala de restauração, FC fala de conseqüências. Estamos tentando restaurar algo no Brasil, ao mesmo tempo em que evitamos pensar nas conseqüências de nossos atos? Ou é um gênero permanentemente em baixa e fora de moda? Talvez minha paixão por FC seja fruto do acaso. O primeiro livro que li voluntariamente, aos 11 anos de idade, foi «A Nave Explorer em Perigo», da série Perry Rhodan, e foi amor à primeira vista: nunca mais saí por aí sem um livro na mochila ou, mais recentemente, um audiobook no tocador de mp3. Minha pequena biblioteca está recheada de romances históricos, thrillers, horror e fantasia de todos os tipos, mas sempre que estou cansado, de cabeça quente, fisicamente exausto ou simplesmente quero folhear alguma coisa para evitar alguma tarefa, a primeira coisa que alcanço, três de cada quatro vezes, é algum DVD, livro, gibi ou RPG de FC.
Estranho? Uma das idéias básicas da FC é discutir o estranhamento mesmo, então tá beleza.
Ilustrações:
• Peça publicitária do SciFi Channel (hoje, "Syfy").
• «Sci-Fi Girl - Commission» © 2009 =yumedust via deviantART.






