DIÁRIO DO DIOR

Minhas lucubrações eventuais sobre cinema, TV, videogames,
ficção científica, ciência, comportamento e outras nerdices

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História

Semana passada, fuçando em coisas esquecidas no canto do armário, encontrei um bloco de notas que levava para a faculdade. Lá, escritas em folhas sem pauta, com várias canetas diferentes, haviam dúzias de anotações de livros que li e de aulas que assisti, todas pertinentes ao período do Brasil Colonial, quase todos datados de 2005.

Modéstia à parte, são textos muito bons! Portanto, vou devagar transcrevê-los para cá; acho que vocês vão gostar muito dos curtos textos que produzi sobre esse período de nossa história e livros interessantes de ler sobre isso. Como são textos feitos de mim, para mim, não estão muito palatáveis (um monte de frases com pouco mais que palavras-chave, sintaxe corrida, abreviações, essas coisas) vou trabalhar neles e pouco a pouco irei publicá-los aqui. Espero que meus leitores gostem, e espero algum feedback.

Kick-Ass

Talvez você se lembre de um filminho no YouTube que rolou bastante no final do ano passado. O vídeo, capturado com um celular, mostrava um cara sozinho, descendo o cacete em alguns bandidos que tentavam assaltar um garoto num estacionamento. Se você não se lembra, aqui está:


Acontece que esse vídeo, que emocionou muita gente que ainda acredita em tudo o que vê na internet, era um viral de um gibi que saiu pouco tempo depois, chamado Kick-Ass.

Produzido pelos monstros Mark Millar (The Authority, Wanted, Os Supremos, Guerra Civil) e John Romita, Jr. (Homem de Ferro, X-Men, Homem-Aranha), o que já fala muito sobre a qualidade desse gibi, em Kick-Ass acompanhamos as aventuras de Dave Lizewski, um estudante colegial de Nova Iorque, que se inspira nos gibis de super-heróis que lê para ele mesmo se tornar um e tentar livrar as ruas da violência — violência essa da qual ele mesmo é vítima.

Kick-Ass é uma das obras de autor (ou seja, os criadores, e não a editora, detêm os direitos sobre a revista) e publicado pela Marvel sob seu selo Icon. Um filme está sendo produzido, com direção de Matthew Vaughn (responsável por «Stardust» em 2007 e «Nem tudo é o que parece», de 2004) e está programado para estrear nos EUA no começo de 2010 e tem Nicholas Cage... como coadjuvante (ufa!). Você pode ver fotos da produção na IMDb.

Não é de surpreender que um gibi de Millar e Romita seja muito, mas muito violento. Se você procurar por Kick-Ass para ler, espere violência gratuita nível-Tarantino — mas também muito humor, ação e uma ótima narrativa.

"Trailer" do gibi:

A ficção científica e eu

De certo modo, sinto-me um explorador solitário da Ficção científica (ou FC). É difícil encontrar camaradas leitores do gênero, gente com quem eu possa conversar sobre os livros que li e trocar idéias sobre os melhores filmes, pegar sugestões do que ler e ver, que game jogar, etc. Não sou muito de amizades virtuais, mas se quero falar de FC, preciso recorrer a fóruns e listas de discussão em língua inglesa, porque aqui no Brasil é muito raro eu encontrar fãs do gênero.

O que não sabia é que não é apenas minha posição geográfica ou meu círculo de relacionamentos que estreita meu compartilhar do gosto pela FC, mas sim a tônica do público brasileiro, como opina o programa da GloboNews que reproduzi anteontem. Acrescente-se à opinião da matéria de TV uma idéia esquisita que os produtores, editores e mesmo consumidores brasileiros têm de literatura. Acha-se, no Brasil, que literatura tem a nobre função de educar, socializar, conscientizar, aculturar. Obras dos mais diversos calibres da literatura nacional são tratadas como baluartes da cultura e do conhecimento nacionais. Essa idéia estranha de que um livro tem uma função social ao invés de ser o que é no exterior — fonte de entretenimento — produz e reproduz apenas obras chatas e textos datados são tidos como lindos; escritores novos que se vêem na obrigação-cidadã de cumprir essa função social dão continuidade à longa fila de textos enfadonhos, livros que se levam a sério demais.

Aparte da função da FC de alertar, de falar sobre o que poderia (ou poderá) acontecer se não deixarmos de fazer X ou se fizermos Y, um livro (de qualquer gênero) deveria ter a função primordial de divertir, não de aculturar. Nos países ocidentais desenvolvidos — que não precisam desesperadamente incutir cultura em seu povo —, livro é só livro, e as pessoas lêem para se entreter, e não para tornarem-se pessoas melhores. Desse modo, FC no Brasil ganha a cunha tácita de sub-literatura, textos menores, coisa de alienados; bom mesmo é ler porcarias como «O Ateneu» ou «O Cortiço», de preferência na escola aos 13 anos, para continuarmos a incutir nas crianças, geração após geração, a idéia de quer ler é chato, enfadonho, difícil e cansativo.

Voltando à minha solição temática: Robert A. Heinlein, Isaac Asimov, Andre Alice Norton, Arthur C. Clarke, Alan Dean Foster, Anne McCaffrey, William Gibson, Ann Crispin... quem de vocês, meus amigos leitores de meu blog, conhece esses autores e autoras? Fantasia é fácil de encontrar, qualquer mané na esquina leu J.R.R. Tolkien, C. S. Lewis, Neil Gaiman, J.K.Rowling e Terry Pratchett — felizmente e graças ao cinema, não me entendam mal, mas onde estão os apreciadores da boa e velha FC? Seria isso um reflexo de algum momento pelo qual passamos? Fantasia fala de restauração, FC fala de conseqüências. Estamos tentando restaurar algo no Brasil, ao mesmo tempo em que evitamos pensar nas conseqüências de nossos atos? Ou é um gênero permanentemente em baixa e fora de moda? Talvez minha paixão por FC seja fruto do acaso. O primeiro livro que li voluntariamente, aos 11 anos de idade, foi «A Nave Explorer em Perigo», da série Perry Rhodan, e foi amor à primeira vista: nunca mais saí por aí sem um livro na mochila ou, mais recentemente, um audiobook no tocador de mp3. Minha pequena biblioteca está recheada de romances históricos, thrillers, horror e fantasia de todos os tipos, mas sempre que estou cansado, de cabeça quente, fisicamente exausto ou simplesmente quero folhear alguma coisa para evitar alguma tarefa, a primeira coisa que alcanço, três de cada quatro vezes, é algum DVD, livro, gibi ou RPG de FC.

Estranho? Uma das idéias básicas da FC é discutir o estranhamento mesmo, então tá beleza.


Ilustrações:
• Peça publicitária do SciFi Channel (hoje, "Syfy").
• «Sci-Fi Girl - Commission» © 2009 =yumedust via deviantART.

É difícil fazer ficção científica?

Ontem perdi o programa Espaço Aberto: Ciência e Tecnologia, na GloboNews. Perdi a marca das 21:30, mas felizmente o canal reproduz a maioria de seus programas na internet. Assista abaixo os pouco mais de vinte minutos do bom programa, sobre ficção científica, sua roupagem atual e a dificuldade que o gênero tem de prosperar no Brasil.

A qualidade está boa o suficiente para ser assistido em tela cheia (basta pressionar o botãozinho no canto inferior direito).


Comportamento de massa

Há alguns anos, eu publiquei uma passagem do livro Esfera, de Michael Crichton, intitulado «O problema antropomórfico». Hoje, publico outra passagem literária do mesmo autor, desta vez do bestseller Parque dos Dinossauros. As palavras são do personagem Ian Malcolm, um matemático especializado em Teoria do Caos.
— Em dez mil anos o ser humano passou da caça para a agricultura, das cidades para o espaço cibernético. O comportamento está avançando rapidamente e pode ser não-adaptativo. Ninguém sabe. Embora eu ache que o espaço cibernético significa o fim da nossa espécie. [...]
— Porque significa o fim da inovação — disse Malcolm. — A idéia de que o mundo todo está ligado é morte em massa. Todo biólogo sabe que grupos pequenos isolados evoluem com maior rapidez. Se pusermos dez mil pássaros numa ilha oceânica vão evoluir rapidamente. Se pusermos dez mil num grande continente a evolução é mais lenta. Ora, na nossa espécie, a evolução ocorre especialmente por meio do comportamento. Inventamos um novo comportamento para nos adaptar. E todos no mundo sabem que a inovação só ocorre em pequenos grupos. Se pusermos três pessoas num comitê, elas podem conseguir fazer alguma coisa. Dez pessoas, fica mais difícil. Trinta pessoas, nada acontece. Trinta milhões, torna-se impossível. Esse é o efeito dos meios de comunicação de massa — impede que as coisas aconteçam. A comunicação de massa simplesmente afoga a diversidade. Faz com que todos os lugares fiquem iguais. Em Bangcoc, Tóquio ou Londres, encontramos um McDonald’s numa esquina, uma Benneton em outra, um Gap no outro lado da rua. As diferenças regionais desaparecem. Todas as diferenças desaparecem. No mundo da comunicação de massa, há menos de tudo exceto os dez livros mais vendidos, discos, filmes, idéias. O povo se preocupa, temendo perder a diversidade das espécies na floresta tropical. Mas e a diversidade intelectual, nosso recurso mais necessário? Essa está desaparecendo com maior rapidez do que as árvores. Mas ainda não percebemos isso, e agora estamos pensando em pôr cinco bilhões de pessoas juntas no espaço cibernético. E isso vai congelar todas as espécies. Tudo vai parar e morrer. Todos pensando a mesma coisa ao mesmo tempo. Uniformidade global.
— E acredite, vai ser rápido. Se você mapear sistemas complexos numa paisagem de perfeição vai descobrir que o comportamento pode se mover tão depressa que a perfeição diminui numa rapidez incrível. Não precisa de asteróides ou doenças, nada mais. E só um comportamento que surge de repente e acaba sendo fatal para a criatura que o usa.

Quem me recordou dessa passagem foi o Alex, que grava comigo o podcast semanal Estilingue.

Se você quiser saber mais sobre Michael Crichton e suas bem-colocadas teorias, ouças os dois episódios que gravamos sobre o autor: O enigma de Michael Crichton e O parque de Michael Crichton.

Eu, particularmente, acho que o segundo está melhor (eu falo menos nele).